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Da minha janela...

sábado, fevereiro 26, 2011

As caixas da Caridade

Tudo começa em Portugal, com um conjunto de pessoas verdadeiramente solidárias, que ao longo do ano vão acolhendo nas suas próprias casas os bens que enchem as casas dos outros. A separação por géneros é obrigatória com vista à organização possível. Depois é o embalamento, a rotulagem de caixas e o carregamento para transporte que levará ao contentor e ao navio.

A arrecadação é pequena para tanta caridade. Entre caixas, caixotes, malas, sacos, encontra-se de tudo. De utilidades a futilidades, tudo vem contentor fora, numa viagem longínqua e ondulante.


Arrecadação com caixas

Este é o resultado da caridade do povo português, que sempre solidário nas horas necessárias, não mede esforços para ajudar o seu semelhante mesmo que esse se encontre a milhas de distância. Mas esta caridade dá trabalho, muito trabalho. São necessárias muitas horas de dedicação para que quem realmente necessita, receba de forma justa esta dádiva portuguesa.

Mais caixas armazenadas


Inicia-se assim uma viagem de um mês até Moçambique. 
Aqui trava-se a segunda batalha. Após as formalidades de desembarque, passa-se ao armazenamento da carga. Não dispondo estas voluntárias de qualquer espaço público ou estatal, utilizam algumas arrecadações privadas para armazenar a dádiva portuguesa.   


Não presenciei nem ajudei nesta tarefa de carga e descarga. O espirito da minha caridade ainda não me tinha possuído. Mas hoje arrependo-me muito de não ter colaborado com estas almas voluntárias na árdua tarefa de armazenar todas a caixas desalfandegadas. A estas senhoras valeu-lhes as famílias, que igualmente caridosas, ajudaram nesta missão. Não sei precisar números, mas eram muitas, mesmo muitas caixas. 


Depois de empilhadas passa-se à terceira fase. Começar a desvendar o conteúdo de cada uma.  Aqui, a lei de Lavoisier é aplicada em toda a sua essência; "Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Caixa por caixa, vão estas boas mulheres abrindo e separando tudo o que os outros acharam já supérfluo.
Abertura das caixas e separação por idades
Hoje fui ajudar. 
Devidamente instruída dos procedimentos, meti mãos à obra. Agarrada com firmeza, uma caixa desceu do monte de muitas. Por fora uma etiqueta: "roupa de mulher". Já completamente esventrada, comecei a retirar as ofertas para um lençol previamente estendido no chão. A roupa é usada mas quer-se limpa!
Selecção das roupas por idades e sexos
Após uma separação criteriosa e com a caixa já vazia, apeteceu-me fazer um diagnóstico; esta seguramente pertencia a alguém que já partiu e quem ficou, desfez-se destas pequenas recordações. Cada caixa pode revelar uma história, contar uma vida. Só temos de estar atentos. Mas havia muito mais a fazer.  Outra caixa desceu. Desta vez sapataria. Estas ficam para o fim. Por vezes não têm utilidade.
Quem necessita escolhe com (à)vontade.
Mais outra veio para baixo. "Roupa de criança". Os montinhos foram crescendo no lençol e, caixa a caixa, fomos separando ofertas para os outros. O que está em mau estado é colocado de parte e deixado junto ao contentor do lixo para quem, sem vergonha, quiser aproveitar.
Selecção já feita
Com o lençol já repleto de roupas passa-se a outra fase; o armazenamento em prateleiras. Aqui tudo é dividido por idades e sexos, ficando assim pronta para ser oferecida. 


E quando e a quem se oferece? 


Sempre que existe uma oportunidade, que aqui nesta terra, é todos os dias. Caixas sortidas são enviadas para orfanatos, escolas, missões. Pelo Natal são feitos conjuntos personalizados que se oferecem aos meninos internados nos hospitais de Maputo. E por fim, a quem pede e quem necessita. Todos os dias são dias de ofertas.


Mas nem tudo é usado. Muitas são as empresas que escoam os seus stokes já descontinuados para estas paragens. Muitas são as peças de roupa ainda com etiquetas, conjuntos de livros e material escolar por estrear, calçado de marca, artigos de puericultura, entre outras ofertas novinhas em folha. Roupa, livros, malas e carteiras, rendas, lençóis e cortinados, acessórios vários, brinquedos, são dádivas generosas que chegam do outro lado do mundo.


Podem imaginar a felicidade desta gente que necessita? 
Não, não podem. É algo que só quem observa pode descrever.    


Depois de uma tarde de separação bastante cansativa, conduzi até casa. Na rua e em cada ser via alguém para ser ofertado. Foi o momento em que a minha consciência percebeu de como realmente esta gente necessita. E necessita de tudo. E tudo é bem vindo.


O valor destas mulheres voluntárias é muitas vezes esquecido, ignorado e até desconhecido. Mas estas mulheres, que dedicam tardes inteiras à selecção da alegria dos outros, não podem ser menosprezadas. O trabalho voluntário que desempenham em prol de quem realmente necessita é louvável e merece ser divulgado, aplaudido, reconhecido.
Aqui fica a minha sincera homenagem. Bem hajam. 


Assim se organiza a felicidade de muitos.
CSD

Gentilmente cedido por Vivências Contadas 

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